Transtornos de deglutição na demência por doença de alzheimer: o que apenas a videofluoroscopia consegue revelar?
“Ele come normalmente.” Essa é uma das frases mais frequentemente ouvidas por fonoaudiólogos quando avaliam idosos com Doença de Alzheimer. O paciente continua realizando todas as refeições por via oral, não apresenta episódios frequentes de engasgo e, à primeira vista, parece alimentar-se sem dificuldades. Entretanto, a pergunta que merece ser feita é outra: será que uma alimentação aparentemente normal significa, de fato, uma deglutição segura?
A ciência tem mostrado que nem sempre. Um estudo publicado em 2026 na revista Audiology – Communication Research lança luz sobre um aspecto ainda pouco reconhecido na prática clínica: alterações importantes da deglutição podem estar presentes muito antes de surgirem sinais clínicos evidentes. E, muitas vezes, apenas a videofluoroscopia é capaz de revelar esses comprometimentos.
A deglutição é um dos processos motores mais complexos do organismo humano. Ela depende da perfeita integração entre estruturas musculares, sensoriais e centros corticais responsáveis pelo planejamento e pela execução dos movimentos que conduzem o alimento da boca ao estômago.
Na Doença de Alzheimer, porém, essa rede neural sofre um processo progressivo de degeneração. Inicialmente, os déficits cognitivos chamam mais atenção. Com a evolução da doença, entretanto, funções motoras altamente refinadas, como a mastigação e a deglutição, também passam a ser comprometidas.
O grande desafio é que essas alterações frequentemente evoluem de forma silenciosa. O paciente continua comendo, mas a eficiência do processo alimentar já não é a mesma. É justamente nesse ponto que a avaliação clínica isolada pode não ser suficiente.
Buscando compreender melhor esse fenômeno, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais analisaram exames de videofluoroscopia da deglutição de 55 idosos com diagnóstico de demência por Doença de Alzheimer, todos com 60 anos ou mais e ainda em alimentação exclusivamente oral.
A videofluoroscopia, considerada o padrão-ouro para avaliação da deglutição, permite visualizar em tempo real o trajeto do alimento desde a cavidade oral até o esôfago. Diferentemente da avaliação clínica, ela torna possível identificar alterações biomecânicas discretas que permanecem invisíveis durante a observação convencional.
Durante o exame, os participantes receberam alimentos contrastados com bário em diferentes consistências, líquida, extremamente espessada e sólida, seguindo os critérios internacionais da International Dysphagia Diet Standardisation Initiative (IDDSI). A gravidade da disfagia foi classificada pela Escala de O’Neil, os episódios de penetração e aspiração pela Escala de Rosenbek e o estágio da demência foi determinado por meio do Clinical Dementia Rating (CDR).
Os resultados chamam atenção justamente pelo contraste entre a impressão clínica e o que a videofluoroscopia revelou. À primeira vista, a maioria dos participantes parecia apresentar uma deglutição preservada: 87,3% foram classificados como portadores de deglutição funcional. Se a análise terminasse nesse ponto, seria fácil concluir que quase todos os pacientes estavam alimentando-se de forma segura.
Mas a videofluoroscopia contou uma história diferente. Quando cada fase da deglutição foi analisada detalhadamente, verificou-se que todos os participantes apresentavam alterações na mastigação. Além disso, 96% exibiam resíduos alimentares na cavidade oral após a deglutição, 80% acumulavam resíduos na faringe e 82% apresentavam alterações no trânsito esofágico. Episódios de penetração ou aspiração laringotraqueal foram identificados em 10,9% dos idosos, ocorrendo predominantemente durante a ingestão de líquidos.
Esses resultados revelam uma realidade importante, uma deglutição considerada funcional não significa, necessariamente, que a fisiologia da deglutição esteja preservada. A avaliação global pode transmitir uma impressão de normalidade, enquanto alterações biomecânicas relevantes já estão instaladas e evoluem de maneira silenciosa.
Outro achado relevante foi a associação entre a gravidade da disfagia, a idade mais avançada e os estágios mais severos da demência. Essa relação é consistente com o conhecimento atual sobre a fisiopatologia da doença. À medida que a Doença de Alzheimer progride, as áreas corticais envolvidas no planejamento motor e no controle sensório-motor da deglutição tornam-se progressivamente comprometidas. Paralelamente, o envelhecimento fisiológico reduz as reservas funcionais necessárias para coordenar a mastigação, a propulsão do bolo alimentar e a depuração eficiente dos resíduos faríngeos.
Como consequência, déficits cognitivos, apraxias, alterações sensoriais e prejuízos motores passam a comprometer gradualmente todas as fases da deglutição. Nem sempre essas alterações provocam engasgos evidentes. Muitas vezes, manifestam-se apenas por pequenos resíduos alimentares, atrasos discretos no trânsito do bolo ou redução da eficiência da limpeza faríngea, modificações aparentemente sutis, mas que aumentam progressivamente o risco de broncoaspiração, pneumonia aspirativa, desnutrição e desidratação.
Talvez, para prática fonoaudiológica, a principal contribuição do estudo seja lembrar que a ausência de sintomas não equivale à ausência de alterações funcionais. Na rotina clínica, pacientes e familiares frequentemente associam segurança alimentar apenas à presença de tosse ou engasgos. Entretanto, as evidências demonstram que o comprometimento biomecânico frequentemente antecede esses sinais clínicos.
Nesse contexto, a videofluoroscopia deixa de ser apenas um exame complementar para assumir papel estratégico na tomada de decisão clínica. Ao identificar precocemente alterações que ainda não produzem manifestações evidentes, o exame possibilita a implementação de intervenções individualizadas, incluindo adaptações de consistência, estratégias compensatórias, ajustes posturais, orientações aos cuidadores e programas de reabilitação, favorecendo a manutenção da alimentação oral com maior segurança. A videofluoroscopia não apenas confirma a presença de disfagia. Ela permite compreender como a deglutição está sendo realizada, quais mecanismos fisiológicos estão comprometidos e em que momento do processo surgem as alterações.
Essa compreensão detalhada transforma a condução terapêutica. Em uma doença progressiva como a Doença de Alzheimer, identificar alterações ainda silenciosas significa antecipar intervenções antes do aparecimento das complicações. Dessa forma, torna-se possível preservar a segurança alimentar, reduzir riscos respiratórios, minimizar perdas nutricionais e contribuir para que o paciente mantenha sua autonomia e qualidade de vida pelo maior tempo possível.
No cuidado às pessoas com demência, enxergar além do que é visível faz toda a diferença. E, muitas vezes, é justamente a videofluoroscopia que revela aquilo que a avaliação clínica, isoladamente, ainda não consegue mostrar.











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