Óculos da Meta e perda auditiva: o que há por trás da nova tecnologia
Imagine usar um óculos que, além de corrigir a visão, tira fotos, faz chamadas, reproduz música, interage com inteligência artificial e ainda pode ajudar você a ouvir melhor. Parece coisa de filme de ficção científica? Pois essa tecnologia já está começando a se tornar realidade.
Em setembro de 2026, a Meta anunciou uma nova função para seus óculos inteligentes: o Hearing Enhancement, ou “aprimoramento auditivo”. O recurso foi desenvolvido para adultos com perda auditiva leve a moderada e transforma os óculos compatíveis em um dispositivo de amplificação sonora de venda direta. A não prescrição, porém, vale para os Estados Unidos, onde o recurso foi autorizado pela FDA.
E aqui começam algumas das minhas dúvidas como fonoaudióloga:
– Quem identificou essa perda auditiva?
– Como foi realizado o diagnóstico?
– Quais são as queixas desse paciente?
– Estamos diante apenas de uma perda auditiva ou ela faz parte de um quadro com outros sintomas?
Mas, afinal, estamos falando de um aparelho auditivo? Como esses óculos ajudam a ouvir melhor? E eles substituem uma avaliação audiológica e um aparelho auditivo convencional?
Vamos entender.
Os Meta Glasses são óculos inteligentes desenvolvidos pela Meta em parceria com a EssilorLuxottica. Eles combinam o formato de óculos convencionais com câmeras, microfones, alto-falantes, conectividade e inteligência artificial. Entre os recursos disponíveis estão captura de fotos e vídeos, chamadas telefônicas, reprodução de áudio e interação com inteligência artificial. Para a Audiologia, a novidade é justamente o Hearing Enhancement. É importante destacar que não se trata simplesmente de aumentar o volume dos sons.
Nos Estados Unidos, a FDA classificou o recurso como software de aparelho auditivo por condução aérea, integrado a uma plataforma de óculos inteligentes.
Os óculos possuem microfones incorporados à armação, que captam os sons do ambiente. Esses sinais são processados digitalmente pelo sistema, que realiza o isolamento da fala, redução do ruído de fundo e amplificação de acordo com o perfil configurado pelo usuário. Depois do processamento, o som é reproduzido pelos alto-falantes localizados nas hastes dos óculos e chega aos ouvidos por condução aérea, sem a necessidade do uso de moldes auriculares ou olivas.
O usuário realiza a autoconfiguração por meio de um aplicativo no smartphone. A partir desse processo, o sistema cria um perfil auditivo para cada ouvido, permitindo ajustes de volume, nitidez e balanço. Portanto, a tecnologia utiliza conceitos já conhecidos na amplificação auditiva. A novidade está principalmente na integração desses recursos à estrutura de um óculos inteligente.
Do ponto de vista regulatório norte-americano, o recurso de amplificação é classificado como uma tecnologia de aparelho auditivo. O diferencial está no formato e na distribuição dos componentes.
Nos aparelhos auditivos convencionais, microfones, processadores e receptores ficam incorporados ao dispositivo utilizado na orelha ou atrás dela. Nos óculos da Meta, esses componentes estão integrados à armação.
Essa característica pode ser interessante para pessoas que não gostam de utilizar um dispositivo exclusivamente associado à perda auditiva. Os óculos podem ser percebidos simplesmente como um produto tecnológico ou um objeto de moda. Mas é importante lembrar, a ideia de utilizar óculos para auxiliar a audição não é completamente nova, nos anos de 1950 eles já existiam. A inovação atual está na tecnologia digital, no processamento do sinal e na integração com outros recursos.
Segundo as informações regulatórias e da Meta, o Hearing Enhancement é destinado a adultos com 18 anos ou mais e perda auditiva leve a moderada. Isso não significa que a tecnologia seja adequada para qualquer pessoa que tenha dificuldade para ouvir. Pessoas com perdas auditivas severas ou profundas, assimétricas ou acompanhadas de outros sintomas precisam de avaliação adequada antes de optar por uma solução de amplificação de venda direta.
A própria percepção que uma pessoa tem da sua audição pode não corresponder aos seus limiares audiométricos. E esse é um dos pontos que mais me preocupam quando falamos em autoconfiguração.
Mas e a audiometria, ela continua sendo necessária? Sim, mil vezes sim. A possibilidade de configurar um dispositivo sozinho não significa que a avaliação audiológica deixou de ser importante. A audiometria permite identificar a existência, o grau, a lateralidade e a configuração da perda auditiva. Essas informações são fundamentais para compreender o funcionamento do sistema auditivo e definir a intervenção mais adequada.
Além disso, uma alteração auditiva pode estar acompanhada de outros sintomas. Perda auditiva súbita, assimetria importante, zumbido, tontura, dor ou secreção, por exemplo, são situações que justificam avaliação médica e audiológica. Por isso, sempre que uma pessoa perceber qualquer alteração na audição, deve procurar um fonoaudiólogo ou médico otorrinolaringologista.
Mas afinal, o que é melhor, o aparelho auditivo convencional ou o sistema de amplificação sonora da Meta? Lembrando que umas das principais diferenças está na forma de adaptação e no acompanhamento.
Na adaptação convencional de um AASI, o fonoaudiólogo avalia a audição, analisa o audiograma, considera as necessidades comunicativas e o estilo de vida do paciente e programa o dispositivo de acordo com suas características auditivas. Depois, acompanha o usuário e realiza ajustes quando necessário.
Nos óculos da Meta, o próprio usuário realiza a configuração inicial pelo aplicativo.
São, portanto, modelos diferentes de acesso e adaptação. E é justamente aí que precisamos ter cautela para não reduzir a adaptação de um aparelho auditivo à simples amplificação do som. A seleção e a adaptação de um AASI envolve muito mais do que aumentar sons.
A Meta diz que um dos principais diferenciais desses óculos é o uso da Inteligência Artificial. Os óculos possuem diversos recursos de inteligência artificial, mas é importante não confundir essas funções com o Hearing Enhancement. A IA pode interpretar informações, responder perguntas e executar diferentes tarefas. Já a função de amplificação auditiva capta os sons pelos microfones, processa os sinais e reproduz o som amplificado pelos alto-falantes, de acordo com o perfil configurado pelo usuário. Ou seja, não devemos imaginar que a inteligência artificial simplesmente “entende a fala” e a envia diretamente para o ouvido.
A tentativa de utilizar diferentes dispositivos para melhorar a audição não é nova. Fones de ouvido, smartphones e aplicativos já incorporam recursos relacionados à audição. A novidade é levar a amplificação auditiva para outro objeto cotidiano, os óculos inteligentes. Lembrando que o aparelho auditivo embutido em um óculos não é novo.
Isso também pode trazer uma mudança interessante na aceitação. Para algumas pessoas, o uso de um aparelho auditivo ainda está associado à ideia de assumir socialmente uma perda auditiva. Os óculos inteligentes podem ser percebidos simplesmente como tecnologia.
Mas será que precisamos esconder uma tecnologia auditiva para que ela seja aceita? Penso que não. Mais importante do que disfarçar o dispositivo é garantir que ele seja adequado às necessidades auditivas de quem o utiliza.
No Brasil, é preciso diferenciar o óculos inteligente como eletrônico de consumo da função de amplificação auditiva. Se comercializado apenas para fotografar, gravar vídeos, ouvir música ou interagir com inteligência artificial, o produto é tratado como eletrônico de consumo.
Quando existe a finalidade declarada de auxiliar pessoas com perda auditiva por meio de amplificação sonora personalizada, a situação muda. Nesse caso, o recurso pode se enquadrar como dispositivo médico e ficar sujeito à regularização pela Anvisa.
Nos Estados Unidos, o sistema de amplificação da Meta foi autorizado pela FDA como software de aparelho auditivo por condução aérea integrado aos óculos inteligentes.
Até o momento, não encontrei informações públicas indicando que o recurso específico de amplificação auditiva da Meta já esteja regularizado pela Anvisa. Portanto, sua eventual comercialização oficial no Brasil com essa finalidade dependerá do processo regulatório brasileiro.
Além da questão sanitária, os óculos também levantam discussões relacionadas à privacidade, já que podem captar imagens, vídeos e sons do ambiente. No Brasil, essas questões envolvem, entre outras normas, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Os óculos da Meta mostram uma tendência cada vez mais evidente, a aproximação entre tecnologia vestível, inteligência artificial e saúde auditiva. Ainda é cedo para saber como essa tecnologia será incorporada à rotina dos usuários e qual será seu desempenho nas diferentes situações de escuta.
Para nós, profissionais da Audiologia, surge um novo desafio, acompanhar essas inovações, conhecer suas possibilidades e limitações e, principalmente, orientar os pacientes para que utilizem tecnologias realmente adequadas às suas necessidades.
Porque ouvir melhor não é apenas uma questão de aumentar o som. É entender o que está acontecendo com a audição e escolher a tecnologia adequada para cada pessoa.
Fga. Me. Erika Longone B. Gonçalves – CRFa 2-6859











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