A Idade Bate à Porta… e o Seu Sistema Auditivo Sente!
Você já reparou como, à medida que os anos passam, acompanhar conversas em bares barulhentos ou entender a fala rápida de uma série de TV parece exigir um pouquinho mais de esforço? A culpa nem sempre é do “ouvido” propriamente dito (a parte periférica), mas sim do sistema nervoso auditivo central (SNAC), ou seja, como o nosso cérebro interpreta e processa as informações sonoras.
A literatura fonoaudiológica sempre deixou claro que o Transtorno do Processamento Auditivo (TPA) pode afetar crianças, adultos e idosos. Porém, quando avaliamos adultos sem perda auditiva (os chamados normo-ouvintes), enfrentávamos um dilema clínico persistente: quais são os padrões de normalidade antes da senescência?
Um estudo abrangente conduzido por pesquisadores da USP Ribeirão Preto e da UFF (Zanchetta, Meneghelli e Lunardelo) trouxe luz a essa questão ao investigar o impacto do “declínio saudável” da idade no processamento auditivo.
O Estudo em Números
Para entender como a idade afeta o processamento auditivo de adultos sem morbidades ou perdas auditivas, os pesquisadores avaliaram 116 participantes de 18 a 59 anos, todos com audição periférica normal e sem queixas.
A amostra foi dividida em quatro faixas etárias, a saber: 18 a 29 anos, 30 a 39 anos, 40 a 49 anos e 50 a 59 anos.
Os voluntários foram submetidos a uma bateria clássica de testes comportamentais do processamento auditivo: MLD (Masking Level Difference): Avalia a interação binaural (região de tronco encefálico/subcortical); GIN (Gaps-In-Noise): Avalia a resolução temporal (habilidade de detectar pequenos intervalos de silêncio no som); TPF (Teste Padrão de Frequência) e TPD (Teste Padrão de Duração): Avaliam a ordenação temporal (capacidade de reconhecer sequências de sons graves/agudos ou curtos/longos); TDD (Teste Dicótico de Dígitos): Avalia a escuta dicótica e a integração binaural com estímulos verbais.
O Que os Resultados Revelaram?
A grande surpresa, e alerta, do estudo é que o declínio no desempenho do processamento auditivo começa bem antes dos 60 anos. Outro fato bastante relevante é que o desempenho dos indivíduos idosos também não é uniforme entre os testes, as alterações neurofisiológicas no cérebro manifestam-se em momentos e regiões diferentes. O teste que se mostrou mais “resistente” foi o MLD. Esse foi o único teste que não apresentou qualquer diferença significativa de desempenho entre 18 e 59 anos. Como o MLD avalia estruturas subcorticais (tronco encefálico), isso indica que essas regiões permanecem estáveis ao longo da vida adulta. O teste de Resolução Temporal (GIN) e Frequência (TPF): Mostraram uma queda estatisticamente significativa no desempenho a partir dos 40 anos. O teste de Ordenação Temporal (TPD) apresentou queda de rendimento foi gradual, mostrando diferença marcante quando comparamos os adultos jovens (18-29) com o grupo de 50-59 anos. Já o teste de Escuta Dicótica (TDD) revelou diferenças até entre as orelhas! A orelha esquerda mostrou declínio a partir dos 40 anos, enquanto a orelha direita só apresentou queda significativa a partir dos 50 anos.
As autoras propuseram novos valores de referência diante desse “declínio saudável” pré-senescência, já que aplicar o mesmo padrão de normalidade para um jovem de 20 anos e um adulto de 55 anos leva a erros diagnósticos (superestimando ou subestimando alterações).
Abaixo, resumimos as propostas de corte sugeridas pelas autoras (baseadas no percentil 10-90):
| Teste Auditivo | Faixa Etária | Valor de Referência Proposto |
| MLD (Interação Binaural) | 18 a 59 anos | 8 a 14 dB |
| GIN (Resolução Temporal) | 18 a 39 anos
40 a 59 anos |
< 6 ms
< 8 ms |
| TPF (Ordenação de Frequência) | 18 a 39 anos
40 59 anos |
> 76,6% de acertos
> 63,0 % de acertos |
| TPD (Ordenação de Duração) | 18 a 29 anos
30 a 49 anos
50 a 59 anos |
> 90,3 % de acertos
> 80,0 % de acertos
> 70,0 % de acertos |
| TDD – Orelha Direita (Escuta Dicótica) | 18 a 49 anos
50 a 59 anos |
> 98,5 % de acertos
> 93,2 % de acertos |
| TDD – Orelha Esquerda (Escuta Dicótica) | 18 a 39 anos
40 a 59 anos |
> 97,5 % de acertos
> 95,0 % de acertos |
Segundo as autoras, as mudanças de desempenho com o aumento da idade, ainda no período pré-senescência, explicitam o desafio da identificação do TPA neste ciclo de vida.
A adoção de critérios específicos por décadas de vida garante uma fonoaudiologia de precisão, evitando falsos-positivos em adultos maduros. Exigir um padrão de 95% ou 100% no TPF ou TPD de um adulto de 55 anos sem queixas poderia rotulá-lo erroneamente com um transtorno do processamento auditivo. Com isso, ocorre o aumento a precisão para os mais jovens, já que o padrão para adultos jovens (18-29/39 anos) mostrou-se bastante rigoroso. Isso ajuda a identificar TPA sutil em estudantes universitários ou profissionais em início de carreira que relatam dificuldades de aprendizagem ou atenção auditiva. Além disso, oferece métricas reais para reabilitação, pois, ao treinar as habilidades auditivas de um paciente adulto através do treinamento auditivo neurocognitivo, os alvos terapêuticos devem considerar o que é esperado para a sua real faixa etária.
A neurociência auditiva nos lembra diariamente que ouvir bem vai muito além de ter ouvidos saudáveis. Compreender o tempo e o envelhecimento natural do cérebro é a chave para transformar o diagnóstico e a reabilitação da comunicação humana.
Referência: Zanchetta S, Meneghelli LC, Lunardelo PP. Testes comportamentais do processamento auditivo: um estudo sobre valores de referência para adultos normo-ouvintes. CoDAS. 2026;38(3):e20250151. (clique aqui)











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