PEATE Binaural: Estabelecendo Valores Normativos para a Prática Clínica em Adultos

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Escrito por Sigla Educacional

13 de agosto de 2026

Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico Binaural (PEATE-BI): Estabelecendo Valores Normativos para a Prática Clínica em Adultos

Na rotina da eletrofisiologia da audição, o Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico (PEATE) é amplamente reconhecido como uma das ferramentas mais robustas para avaliar a integridade das vias auditivas centrais e estimar limiares eletrofisiológicos. Na maioria das clínicas, a avaliação é realizada de forma monoaural, estimulando cada orelha separadamente.

No entanto, a audição no mundo real é intrinsecamente binaural. A capacidade do cérebro de integrar informações vindas de ambos os ouvidos é fundamental para a localização sonora, a discriminação da fala na presença de ruído de fundo e a eficácia do processamento auditivo central.

O estudo de Antonio Pereira de Carvalho Filho e Hannalice Gottschalck Cavalcanti, publicado na revista Audiology – Communication Research (2026), intitulado “Valores normativos para potencial evocado auditivo de tronco encefálico binaural em adultos”, preenche uma lacuna essencial na literatura fonoaudiológica brasileira ao estabelecer padrões de referência para a aplicação clínica do PEATE Binaural (PEATE-BI).

A estimulação auditiva binaural desencadeia processos neurais complexos no tronco encefálico, particularmente no complexo olivar superior, onde ocorre a convergência dos estímulos vindos das duas orelhas. O estudo do componente de interação binaural (conhecido na literatura como Binaural Interaction Component ou BIC) permite mensurar eletrofisiologicamente essa integração.

Apesar da sua indiscutível relevância diagnóstica para investigar transtornos do processamento auditivo, misofonia e disfunções de via auditiva central, a adoção do PEATE binaural na prática clínica enfrentava um entrave prático: a escassez de tabelas de normatização bem consolidadas para a população adulta normo-ouvinte com parâmetros de estimulação padronizados.

O estudo clínico foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa e avaliou 28 adultos normo-ouvintes (com limiares auditivos iguais ou inferiores a 20 dB nNA e timpanometria do Tipo A com reflexos acústicos presentes).

Os autores adotaram parâmetros rigorosos de estimulação por clique e registro via fones de inserção ER-3A:

  • Estímulo: Clique de polaridade rarefeita
  • Intensidade: 80 dBnNA
  • Taxa de apresentação: 21,1 cliques por segundo
  • Número de varreduras: 2.000 estímulos por promediação
  • Filtro de passagem: 30 a 3.000 Hz
  • Janela de aquisição: 12 ms com ganho de 100 µV

Os exames registraram tanto as respostas monoaurais (direita e esquerda) quanto as respostas sob estimulação binaural simultânea, permitindo a derivação matemática da onda de interação binaural (B(A+B)).

Os achados trouxeram confirmações fisiológicas importantes e dados quantitativos precisos para aplicação imediata nos equipamentos de eletrofisiologia auditiva.

  1. Latências não Mudam, mas a Amplitude da Onda V Aumenta Significativamente

Ao comparar o registro monoaural com o binaural, as latências absolutas das Ondas I, III e V não apresentaram diferenças estatisticamente significativas. Ou seja, a velocidade de condução do impulso nervoso no tronco encefálico permanece uniforme independentemente da estimulação ser unilateral ou bilateral.

Em contrapartida, houve um aumento estatisticamente significante na amplitude da Onda V (p<0,001) durante a estimulação binaural em comparação à monoaural. Esse ganho reflete o somatório neural e a somação binaural que ocorrem nas vias auditivas centrais.

  1. Valores Normativos para o PEATE-BI (80 dBnNA)

Com base na análise descritiva e nos intervalos de confiança de 95% calculados pelos pesquisadores, foram estabelecidos os seguintes intervalos de referência para latências absolutas e interpicos sob estimulação binaural:

Parâmetro / Onda Faixa de Valores Normativos (ms) Média / DP no Estudo
Onda I 1,53 a 2,05 ms 1,71 ± 0,12 ms
Onda III 3,50 a 4,35 ms 3,81 ± 0,18 ms
Onda V 5,25 a 6,40 ms 5,64 ± 0,27 ms
Interpico I – III 1,85 a 2,35 ms 2,10 ± 0,12 ms
Interpico III – V 1,50 a 2,27 ms 1,83 ± 0,16 ms
Interpico I – V 3,48 a 4,35 ms 3,93 ± 0,21 ms

 

  1. Padrão de Normalidade do Componente de Interação Binaural (BIC)

Para a análise do componente derivado (BIC), obtido pela subtração da soma das respostas monoaurais da resposta binaural efetiva, o estudo delimitou os seguintes valores de referência em adultos normo-ouvintes:

  • Latência do BIC: 4,67 a 6,43 ms
  • Amplitude do BIC: 0,16 a 0,72 µV

A disponibilização desses padrões de normalidade traz ganhos diretos para a rotina do fonoaudiólogo especialista em audiologia:

  1. Diagnóstico Diferencial do Processamento Auditivo: A alteração isolada no BIC ou na amplitude da resposta binaural (na presença de latências monoaurais normais) pode indicar disfunções sutis de tronco encefálico, frequentemente associadas a dificuldades de escuta no ruído ou outras alterações do processamento auditivo central.
  2. Avaliação da Reabilitação Auditiva: O parâmetro binaural serve como indicador objetivo para monitorar a plasticidade auditiva e a restauração da audição binaural em usuários de próteses auditivas ou implantes cocleares (incluindo casos de perda auditiva unilateral).
  3. Padronização em Equipamentos: Os valores publicados fornecem uma base de referência confiável para laboratórios e clínicas ajustarem as normas internas dos seus sistemas de potenciais evocados.

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